#119 | BRISA: Capotando
Sobre escapar da morte e aprender a viver um pouco melhor depois disso
Quando você menos espera, capota.
Só se dá conta do que aconteceu depois, quando o automóvel finalmente para de girar no ar.
Não entende por que nem como aquilo se deu; só se preocupa em checar a própria integridade física enquanto escorrega para fora da lataria, assustado.
Poucos arranhões. A cabeça em cima do pescoço. Os dois joelhos voltados para frente. Como é possível?
Se houver dois neurônios conversando quando o frenesi passar, tira uma bela lição do susto.
Você tiraria?
Capote 1
O primeiro tinha passado a tarde e o início da noite bebendo pesadamente num boteco.
O ritual começava na sexta-feira, depois que a caneta caía, e se repetia até o fim do domingo. Se tudo desse certo, na hora do Fantástico já estava desmaiado na cama de meias, com a roupa suja do dia, e quatro despertadores programados para o banho da segunda de manhã.
Naquele dia, bebeu com um pouco mais de gosto. Não, podemos dizer que sorveu o elixir da cachaça com mais sofreguidão.
Jurava que tinha tocado Nelson Gonçalves entre um gole e outro, quando já começava a escurecer.
O ânimo afetado veio, porém, de uma modernidade. Ele viu o que não queria numa rede social, a foto do novo casal, a verdade que, mesmo meses depois, ainda não conseguia encarar.
Não era santo, não fora santo. Sabia o porquê do fim, quase concordava. Mas não se conformava com a rejeição. Era o que pegava fundo e ardia a boca do estômago. A sensação queimava mais na hora de acordar e de dormir. E nos indigestos fins de semana.
Ele não merecia uma chance?
Merecia. Ou não.
Era tarde demais. Ele fora longe demais, daquilo não tinha volta. Não dava para amenizar na memória um fim como aquele.
Então, bebia.
E bebia mais do que em qualquer outra fase da sua vida. Misturava tudo, não comia, mandava pra dentro. Trocava tristeza por raiva. Esquecia.
Pegava o carro e ia. Companhia não faltava; nessa fase serviam os colegas do trabalho.
Naquele fim de domingo, sentiu que estava cambaleando um pouco mais que o usual. Um amigo insistiu para pagar a conta e disse que na segunda mandava o pix para ele acertar. Topou. Achou a chave no bolso e saiu com o pneu cantando.
O carro já dirigia sozinho do bar para a casa, brincou.
Pois o carro não dirigiu sozinho.
Naquela subida menos íngreme que as outras do bairro, não muito longe de casa, deu de cara com um poste.
Pow. Batida seca.
Lâmpadas acesas e caras curiosas na janela. Motoristas de aplicativo com suas motos olhando assustados a poucos metros, levando as mãos à cabeça.
Estava vivo e com poucos ferimentos. Checou os membros do corpo, também levou as mãos à cabeça. A cabeça, aliás, pareceu parar de girar ali mesmo. Bateu e acordou, lúcida.
Acabou o romance, ficou a carcaça, a sua e a do carro.
É com elas que você vai viver agora.
Capote 2
Domingos depois.
A mesma rua, com os mesmos postes, o mesmo aglomerado de motoristas de aplicativo, as mesmas janelas dos prédios (ainda fechadas).
Um homem embriagado de novo.
Ele vinha com tudo, a descida era daquelas que convida.
Era dado a velocidades, desafios. Testava os próprios limites não era de hoje. Gostava de esportes, de escalada, de drogas, de carne mal-passada, de drinks fortes e, de vez em quando, de gente.
No domingo à tarde, assim como o parceiro assíncrono do outro dia, bebia com os amigos.
Com a dose certa de álcool ingerida somada a aditivos aspirados e colocados embaixo da língua, sentia-se invencível. Grande, forte, especial. Falava alto. Peito estufado, defendia candidatos da política, citava uns nomes da filosofia, chamava as mulheres por apelidos genéricos quando passavam por ele.
Naquele domingo, passaram algumas, bonitas, mas sisudas. Ele não gostava assim. Ali mesmo decidiu que ia terminar a noite com foco nos caras, preferindo a companhia ruidosa dos amigos.
Ótimos amigos. Cogitou levar um deles para casa, mas se censurou.
Sorte do outro.
Lá pelas 21h, passou voando por aquela rua, no sentido da descida, freou assustado antes da curva, e o carro capotou duas vezes.
Pow. Pow.
Vizinhos nas janelas, expectativa para o motorista sair do carro. Saiu.
Orgulhava-se da sua destreza: ao contrário dos parceiros de academia, era adepto do alongamento, o que acreditava ter facilitado a sua saída do veículo.
Checou as partes do corpo e, ao que consta, estava inteiro, vivo.
Se eu aguentei isso, passo por muito mais.
Beijou a cruz que carregava no colar e desfrutou alguns minutos o circo formado, toda a atenção ao redor nele.
O corpo doía, mas era bom.
Capote 3
O terceiro era terceira. Capotava para dentro.
Enquanto o estrondo do segundo mexia com a vizinhança toda, ela assistia a um documentário sobre Charles Manson.
Estava com os pelinhos do braço arrepiados, como que prontos para se assustar de novo e de novo.
Na TV, mostravam nome a nome os que morreram brutalmente no mesmo dia que a Sharon Tate, naquele 9 de agosto de 1969.
Na rua, o intruso capotava a poucos metros do seu prédio.
Da janela, a vizinhança em burburinho queria ver se o motorista saía com vida. Saiu, não morreu na contramão embora tenha atrapalhado o tráfego. Piada infame, que ela fez para se distrair do clima sombrio que o documentário tinha implantado nela.
Quem passou por Manson e a sua “família” não teve a mesma sorte, a de escapar ileso, de se arrepiar de medo mas sair com uma história para contar.
A vida é estranha. A vida assusta.
Porém, os que sobreviveram a esta história mudaram a sua relação com a vida, com o medo dela.
Capotando, rodopiando, batendo no poste, desviando, se arrepiando, se desligando, cada qual seguiu o seu caminho um tiquinho mais ciente da sorte de estar vivo.
Uns mais, outros menos.
Uma consciência mais aguda da vida se dá no contraste com o seu oposto. Nem sempre é a morte em si, às vezes, é um breve rastro dela. A chance de, como na premissa famosa do “Sétimo Selo”, ganhar tempo e jogar um xadrez com a dona Foice antes do fim.
Prazer, Bru Fioreti
Oi, eu sou a @brufioreti 🙂.
Especialista em diferenciação profissional.
Jornalista. Expert em branding pessoal e carreira feminina. Palestrante. Dona de uma arquitetura própria de diferenciação e mentora, sócia do Método Bold e estudiosa de autenticidade em tempos de AI.
Defensora do repertório amplo e do combo ler/escrever para viver melhor. Generalista por natureza, interessada em tudo de cultura, comportamento, neurociência, emoções, arte, feminismo, moda e tendências.
Tenho 22 anos de jornalismo como editora em grandes redações, cobrindo principalmente Cultura, Comportamento, Moda e Beleza: os lugares que mais me marcaram foram a Revista Glamour, onde fui redatora-chefe por 5 anos, e o Estadão e seu extinto primo paulistano Jornal da Tarde, nos quais passei mais de 6 anos.
Tenho 43 anos, vivo em SP desde 2006, há dez anos empreendendo. Aos interessados, tenho 6 planetas no mapa em Libra, estou no meu terceiro casamento, tenho 3 gatinhos, zero filho.
Dezenas de cursos ministrados por mim, chuto pelo menos uns 15 como aluna entre pós e extensões. No mínimo 8 mil alunos e mentorados até aqui, palestras que não consigo mais contar. Um burnout pra conta e um sem-número de ideias pra dividir <3.
Nesta newsletter, tento sempre voltar à estaca zero e me lembrar do que realmente importa. Ela traz escritas lúdicas, mas também análises e textos mais práticos, parte de um projeto que defende o repertório como norteador para sermos mais autênticos, bem posicionados e satisfeitos - navegando com um misto de mais consciência e mais magia neste clima de fim de mundo.
Esta é uma newsletter com textos autorais e análises, formatos diversos que têm sempre em comum um olhar para o que temos de mais autêntico dentro do cenário atual, a partir de repertório cultural sempre em movimento e um quê de esperança.
Seja bem-vinda; pode vir com qualquer roupa - aqui, a melhor e mais bonita coisa para vestir é a de alma.


